2026/09/01
BILHETE POSTAL
Por Eduardo Costa
“Se te censuram, estás bem, P'ra que a sorte te perdure;
Mal de ti quando ninguém Te inveje nem te censure!”
Cito esta poesia do ‘nosso’ António Aleixo, o mais reconhecido poeta popular da nossa história, quase analfabeto, que no seu jeito característico bem retrata o que sempre fomos e continuamos a ser.
“Venho da Austrália e conheci um português que tem uma enorme cadeia de restaurantes. A história dele diz muito do que precisamos de mudar na mentalidade para sermos um melhor país”. Na qualidade de presidente da Assembleia Geral do Museu Nacional da Imprensa, ouvi estas palavras de Jorge Sampaio. Este português -continuou o então Presidente da República- tinha um tasco na antiga estrada número um, de Lisboa ao Porto. ‘Pincelava’ uns frangos e a fila de espera era enorme. Mas, nunca passou desse tasco. Resolveu emigrar. Na Austrália continuou a fazer o mesmo: pincelar frangos daquela forma que só ele sabia. Hoje tem uma enorme cadeia de restaurantes com a mesma receita.
Concluiu com palavras que sentimos tristes: em Portugal não foi mais longe, nem vão muitos com valor. Pois temos de estar sempre a olhar para trás para não sermos derrubados. E -concluiu: assim perdemos tantos bons profissionais, empreendedores, emprego, receitas para garantir o Estado Social e para assegurar melhor futuro para os nossos jovens.
Não serão necessárias muitas palavras para passar a mensagem do poeta, quase analfabeto, António Aleixo, tão bem ‘traduzidas’ nesta experiência bem explicada por Jorge Sampaio.
Recuso-me a desistir de acreditar que o país venha a admirar quem tem mérito, arrisca, trabalha muito e pode produzir riqueza. Um dia, esta poesia de António Aleixo não terá sentido e aquelas palavras do saudoso Jorge Sampaio já não farão sentido.
Eduardo Costa, jornalista, presidente da Associação Nacional de Imprensa Regional
(Este artigo de opinião semanal é publicado em cerca de 50 jornais)