BILHETE POSTAL
Por Eduardo Costa
Sabado, 30 de maio. Desloco-me ao Hospital Santos Silva, em Vila Nova de Gaia. Visitei um paciente que havia regressado do Hospital São José em Lisboa. Tinha sofrido queimaduras de terceiro grau em 25 por cento do corpo. Num acidente em casa. Deram-no como em alto risco de vida e com pouca certeza de recuperação. Dificultada também pelos 91 anos e infeções próprias da idade.
Notável foi ver o espírito do paciente. As histórias de vida que contou. Lembranças da vida: só as positivas. Grato à vida. Apesar dos infortúnios e sofrimentos.
Contou episódios da sua vida. Na tropa, nos seus 19 ou 20 anos, um general queria-o como efetivo. “Ficou muito zangado comigo quando disse que não”. Mas, estava apaixonado por uma jovem da terra. E já havia decidido o rumo da vida: uma casa e três filhos. E assim aconteceu. Bom profissional, aventurou-se numa pequena oficina de produção de calçado. E foi mais longe do que pensava. A primeira mulher faleceu repentinamente, e resolveu fechar a fábrica. “Indemnizei todos os funcionários e não fiquei a dever nada a ninguém!”, disse com orgulho. “Olho vivo, cabeça fresca e pé ligeiro”, disse ser o que sempre recomendou aos filhos.
Contou que, na época do PREC, foi a uma reunião com um grupo de industriais e o novo ministro da Indústria. “Os colegas protestavam por ter de pagar mais uns poucos escudos aos trabalhadores. Levantei-me e disse: “qual o problema? Subimos mais um escudo em cada par de sapatos e dá para pagar a toda a gente!”
Exemplos como o deste ‘jovem’ de 91 anos têm histórias de vida que devemos recolher. São exemplos de um tempo que parece distante, mas tão presente para entendermos melhor o motivo de termos chegado até aqui como país de empreendedores.
Eduardo Costa, jornalista, presidente da Associação Nacional de Imprensa Regional
(Este artigo de opinião semanal é publicado em cerca de 50 jornais)